
Como um rio
me vejo fluindo sem rumo
perdendo improváveis desvios
vertendo incontáveis soluços
Como um rio
me percebo sem fundo
lançando meus braços ao redor
procurando tatear o mundo...
De novo,
mais uma noite sem dormir,
cheia de lembranças do passado
cheia de grandes planos para o futuro
povoada de medos, inseguranças, ansiedades
regada a sangue quente
plena de suor frio
De novo,
nova fase de noites brancas
cabeça cheia
cama vazia
La fora, o calor da noite superaquece
os infelizes que dormem,
aqui dentro, o vento gelado me diz
como é triste acordar sozinha.
Por isso não durmo,
para não ter que acordar,
para não lidar com a vida,
e seus falsos sinais
de esperanças perdidas.
Por isso não fecho os olhos,
para não enxergar além
da concretude que me cerca,
para que eu, que moro aqui dentro,
continue achando perguntas
e procurando respostas no “lá fora”.
E permaneço acordada,
acendo as luzes,
leio palavras escritas por outros,
em suas noites brancas,
escrevo segredos ocultos do mundo,
em meus dias escuros,
e sonho em dormir!!!
postado por Eduardo Lara Resende às 21:13 em 16/10/2009

Não costumo postar aqui textos escritos por outros. Mas este me falou tão alto ao coração, me soou tão intimamente conhecido, que resolvi postá-lo e torná-lo parte de minhas descrições do mundo e dos meus sentimentos, só que desta vez traduzidos por palavras de outro. E que outro!
"Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos"
© Manoel de Barros

Certa vez me disseram que não deveria mais falar POR FAVOR e MUITO OBRIGADO, palavras que havia aprendido na infância e usado por toda a minha vida como corretas e educadas, e sim em seu lugar POR GENTILEZA e AGRADECIDA. Achei meio absurdo e exagerado. Apesar de as novas palavras serem bem agradáveis e fazer sentido sua utilização, me soavam estranhas aos ouvidos e me sentia meio automatizada ao dizer aquilo que não me saia naturalmente e que me ‘obrigava’ a utilizar expressões que não faziam parte do meu vocabulário. Sempre tive dificuldades em executar algo que me disseram ser o correto sem explicações e convencimento.
Então fui ler a história do profeta, conhecer melhor sua história e vida, de como tinha abdicado de tudo para ensinar estas palavras, de como tinha deixado a convivência com sua própria família para consolar outras tantas por suas perdas, de como havia enfrentado e confrontado toda uma sociedade ao tomar as ruas e propagar sua mensagem bonita, coerente e agressiva em uma década que se dizia libertária. Passaram-se os anos e ele se manteve ali, fiel aos seus princípios e à suas verdades e novamente próximo de sua família. Tido como maluco por alguns, se dizia maluco beleza. Tido como insano por muitos, esbravejava suas palavras gentis. Visto como um profeta urbano era tratado com o carinho e a gentileza que tanto propagou. Viajou por todo o Brasil, cativou pensadores e ganhou muitas estampas nos jornais. Então tornou suas mensagens concretas ao escrevê-las no próprio concreto, em um lugar por onde as pessoas, antes, apenas passavam. A este lugar cheio de fumaça, cinzas e muita sujeira, trouxe a beleza, a cor, a simbologia e a sonoridade de suas palavras. Fez-se presente na vida da muitas pessoas que até então apenas o tinham visto de relance, ou ouvido falar do louquinho do circo em cinzas.
Fez-se ouvir pela palavra escrita, fez-se notar pela figura não vista.
Me encantei pela sua história, e então já fazia sentido tentar usar ‘suas’ palavras. E passei a usá-las, com prazer, com gentileza. Quando passei a usá-las me espantei ao observar as reações das pessoas. Ao contrário do POR FAVOR, que é recebido naturalmente, até indiferentemente sem maiores reações, ao abordar alguém com POR GENTILEZA a pessoa para, levanta o olhar, presta atenção a quem esta falando e ao que se esta falando e até, às vezes, esboça um leve sorriso de satisfação de poder realizar uma gentileza a alguém que a esta pedindo.
É impressionante a boa vontade, na maioria das vezes, com que se é recebido, atendido e tratado ao pronunciar tais palavras de tão grande expressão.
Descobri o poder da palavra, a importância de se notar o significado delas antes de usá-las automaticamente, e sua relevância na propagação de uma intenção, um conceito ou uma mensagem que se queira propagar.
Hoje peço POR GENTILEZA, me digo AGRADECIDA e vejo portas e sorrisos abrirem-se ao soar de palavras tão simples, tão belas e tão significativas.